sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Alcobaça, Que Futuro?!

Alcobaça, outrora uma vila cheia de vivacidade, de dinâmica e bastante atractiva no contexto nacional é hoje uma cidade decadente, triste e que vai definhando numa tentativa de se manter viva. A indústria morreu, o comercrio segue as mesas pisadas e não fossem alguns serviços há muito a tão indesejada tragédia já seria realidade.
Mas o fim não está longe...

Nas últimas décadas vimos assistindo a um desertar da nossa juventude, das nossas gentes, de pessoas promissoras e que muito podiam dar à nossa terra. A situação foi-se agravando e chegou ao extremo de a quase totalidade dos jovens abandonarem a nossa terra. A minha geração por exemplo, sumiu de Alcobaça.
Lembro-me de há uns bons anos atrás, quando eu e os meus colegas nos começámos a aperceber deste fenómeno, termos uma boas e interessantes discussões sobre o assunto e as conclusões batiam sempre no mesmo... O que será desta terra daqui a uns anos quando todos os que têm potencial se forem? Arrepiavamo-nos de pensar nesse longínquo mas real futuro e roíamo-nos de preocupações.
Infelizmente esse dia chegou e vivêmo-lo agora...

Os filhos da terra partiram e levaram com eles o futuro de Alcobaça. Hoje temos alcobacenses espalhados pelas maiores empresas do mundo e com posições de destaque. Temos alcobacenses em universidades conceituadas e à frente de grandes negócios, alcobacenses dos quais nos podemos orgulhar e que com imensa pena os vimos partir. E com isto uma grande certeza, nenhum deles voltará! Em parte porque são pessoas ambiciosas e que querem mais do que Alcobaça lhes pode dar, em segundo porque sentem que a sua terra está a morrer e não querem assistir ao seu funeral.

Depois é ver o que ficou, e com isso entender o que se está a passar e para onde caminha o destino de um dos concelhos que já foi dos mais ricos do país. Entender o porquê de ser tudo tão amador, tão pouco eficaz e fora da realidade actual. Que esperiência de vida têm tido os nossos autarcas e que provas dadas tiveram? Que experiência de gestão de um município ou de uma freguesia podem ter pessoas que nunca saíram da sua terra e que nunca tiveram qualquer experiência ou qualquer formação na área? Que futuro podem delinear pessoas quando os seus horizontes não passam as linhas de fronteira do nosso concelho e se continuam a basear em ideologias retrógradas e nada ajustadas ao mundo actual? Posso estar a parecer muito radical, mas acreditem que não e que isto tem muita influência.

Alcobaça está à deriva. Alcobaça não tem um plano, não tem objectivos e não sabe o que quer. Não há um único projecto de futuro em nenhuma das áreas estruturais. O nosso concelho não sabe que indústria quer e em quê apostar. Não sabe em que tipo de turismo investir e que infra-estruturas criar. Não faz ideia do que fazer com a agricultura e muito menos de que se trata o ordenamento do território. É o caos... Tudo é feito em cima do joelho, à mercê do que envia mais fundos, mais subsídios... Ora queremos ser um concelho rural ora uma região urbana, dependendo do lado a que acenam os euros... Assim não se vai a lado nenhum e só se adiam os problemas.

Não existe uma política de transportes, não se percebem as vantagens de uma Linha do Oeste reabilitada ou de que o futuro de toda a região oeste passa por uma A8 sem portagens e pela aproximação a Lisboa.

Actualmente creio que nos devemos todos sentir envergonhados do estado deplorável em que se encontra o nosso concelho. Estradas num estado deplorável, bermas sujas e cheias de mato, passeios em mau estado e inexistentes em muitos locais, espaços mal cuidados, obras inacabadas um pouco por todo o lado, intervenções mal planeadas, enfim, tudo com um aspecto de grande desleixo e que deixa uma péssiam imagem.

É inaceitável que a C.M.A., o maior empregador do concelho com os seus 450 funcionários não consiga encontrar no mínimo 2 ou 3 para criar uma equipa de limpeza para as bermas das estradas, mais outros tantos para a conservação dos passeios e alguns para outro tipo de reparações. É ridículo termos chegado ao ponto de se deixar degradar tudo até ao limite para depois se lançarem empreitadas de requalificação ao invés de se manter uma eficiente política de conservação. É também inaceitável que não se fiscalizem devidamente as obras, que continuem a aparecer novas estradas em que as sarjetas e tampas dos esgotos estejam desniveladas às vezes 10cm, em que passadas algumas semanas já hajam buracos e lombas, e onde os buracos são tapados da mesma forma que há 30 anos atrás ficando sempre uma enorme elevação de alcatrão de péssima qualidade. Se não o sabem fazer, que aprendam com quem sabe, que recebam formação.

Há muitos municípios com estes cuidados, com gosto em fazer bem e em apresentar um espaço publico agradável. Aqui faz-se por fazer, para dizer que se faz e sem o mínimo brio.

Como é possível que se requalifique uma das maiores praias do concelho e depois não se criem condições para os visitantes nem se criem regras para manter o que foi feito? Porque raios não se fazem de uma vez parques de estacionamento em condições e de grande capacidade nas nossas praias? E porque se deixa estacionar em cima de passeios acabados de fazer ou noutros locais onde não deveria ser permitido?

Para fazer que se faça bem, com gosto e com vontade!

Depois são as ideias iluminadas que vão surgindo como que a mostrar que se pensa no futuro mas que depois de espremidas não deitam nada, como a do novo hospital no Mercoalcobaça, alguns parques temáticos e campus sabe-se lá de quê. Estando-se minimamente consciente da realidade e tendo-se o mínimo de bom senso não se lançam tristes ideias como estas.

Mas desenganem-se aqueles que apenas apontam o dedo aos governantes e classe política, pois os todos estes problemas são também extensíveis à restante comunidade e todo o sector privado. Muito poucos foram aqueles que se consequigram adaptar aos novos tempos, poucas foram as empresas que realmente fizeram por sobreviver ou os comerciantes que se ajustaram aos mercados actuais. A indústria faliu, o comercio segue o mesmo caminho e apenas alguns serviços se vão aguentando e não por muito mais tempo. Não havendo emprego, não se gera riqueza e tudo morre.

Há quem vá apontando o dedo a tudo e a todos, há quem passe todo o tempo à procura de bodes espiatórios em tentativas frustradas de encontrar culpados para todos os problemas. Mas ninguém olha para dentro e para o cerne da questão, para o que realmente se está a passar e principalmente ninguém assume as suas próprias deficiências. Passe-se o que se passar, no final a culpa é sempre dos outros, é sempre da Câmara...

Este é um retrato negro do que se passa em Alcobaça e um retrato que infelizmente é real. Os anos foram passando e infeliamente nada se fez para inverter esta tendência negativa.

Hoje é tarde, o barco partiu e os alcobacenses ficaram a ver...

Mário Bernardes, 2010/08/13

7 comentários:

Rogério Manuel Madeira Raimundo disse...

vou colocar a tua opinião no unir...
entretanto lembrei-me de ti ao ver este video:
http://www.youtube.com/watch?v=zlfKdbWwruY
aquel'abRRaço

(.) disse...

Parabéns Mário pelo texto que, julgo, exprime bem o sentimento de impotência dos muitos alcobacences "emigrados" ou "expatriados" que hoje olham de longe para Alcobaça com pena e tristeza. Cada um de nós tem a sua história, e eu tenho a minha, da qual não me esquecerei jamais. Não quero deprimir mais as pessoas, pois acho que na verdade tudo isto é transitório. Mas não posso esquecer a experiência sociológica de uma década a viver primeiro em Alcobaça e, depois, em Cós (nesta última aldeia, que amo profundamente mas onde evitarei ser sepultado!, nem de graça quiseram a minha ajuda...). Além de cara, a experiência foi rica e instrutiva o suficiente para que hoje, quer eu quer a minha mulher Raquel, tenhamos uma visão bem menos romântica do que a que tínhamos antes. Não sei se o Mário tem ou não razão quando diz, muito informadamente, que Alcobaça atingiu um ponto sem retorno. Confesso que não saberia dizer-lhe qual o tempo passado a que gosdtaria de regressar a Alcobaça. Nada na minha vida correu bem, em tempo algum, quando por aí andei. Sei também, daquilo que me contam, do extremo conservadorismo que sempre marcou a Vila e agora cidade de Alcobaça. Quanto ao futuro, acredito que ele vai ser diferente. Só que não sei se para melhor. Por isso o mais que posso pedir-lhe (e sei que não é pedir pouco) é que não desista de Alcobaça. Não faça o que eu e tantos outros fizeram. Talvez assim ainda reste alguma esperança.

Com um abraço fraterno,

Valdemar Rodrigues

(.) disse...

Deixo um link sobre a minha experiência sociológica realizada em Alcobaça e Cós entre 1999 e 2009.

Saudação,

Valdemar Rodrigues

http://poemaspublicadosvr.blogspot.com/2009/05/album-de-recordacoes-literarias.html

ANTONIO DELGADO disse...

Subscrevo.
António Delgado

Alcobacense disse...

Muito obrigado Valdemar.
De facto eu tento não desistir e manter sempre alguma restia de esperança que as coisas mudem, mas cada vez mais estou a ficar desacreditado... Espero mesmo muito que as coisas melhorem...

Obrigado pela partilha do link sobre a experiência, as memórias dos anos passados em Alcobaça. Está de parabéns o Valdemar por toda a obra deixada, pelo que fez por Alcobaça e em nome de Alcobaça.
Esperamos todos que não pare também pois Alcobaça precisa de pessoas assim ( mesmo que às vezes não reconheça ).
Que nos valha a teimosia... :-)

Um grande abraço!

Cristiana Bernardes disse...

Concordo inteiramente com o teu texto...mas eu ainda não desisti de Alcobaça:)
Na maior parte do tempo, sinto essa mesma frustração. Sinto os queixumes das pessoas, dos comerciantes, dos industriais, mas que nada fizeram para se modernizar.
Quando viajo, e sabes que é com alguma frequência a trabalho, é que me apercebo como parámos no tempo.
As vezes tenho ideias...mas não tenho o poder de as implementar.
Mas se tenho, no meio disto tudo algo a meu favor, é a iadade. E ainda posso chegar a um lugar de poder decisório e um dia fazer mais pela terra que amo.
Sou jovem autarca, ainda tenho um longo caminho a percorrer, mesmo que sozinha, pois raramente encontro alguém que partilhe do meu espírito. O espírito de fazer algo pela cidade, mas desinteressadamente.
Mas sou teimosa:) e anseio mais por Alcobaça. Pelo menos eu ainda não desisti...
Mas como dizes

Luis David de Sousa Ribeiro disse...

A ideia é não desistir, esperar até ao dia em que as mentalidades mudem movidas ou pelas opiniões de alguns ou pela razão simplesmente…